17/05/2010 - 00:30Let it be, let it be.
17/05/2010 - 00:30A história de “Alice no país das maravilhas”, de Lewis Carroll sempre me fascinou, desde que ganhei o livro quando tinha por volta de 7/8 anos do meu irmão mais velho. Li e reli o livro inúmeras vezes, sonhei em ser Alice e muitas vezes discuti com o Gato de Cheshire sobre os caminhos de minha vida, os caminhos que devemos tomar quando não sabemos aonde queremos ir...
Depois de muito ler Alice, já adulta, concluí que a história era uma metáfora de como uma criança se sente ao chegar à escola: caindo em um buraco sem fim, chegando a um lugar onde há portas grandes e pequenas, vivendo determinadas situações nas quais ela deve ser “gente grande” e outras nas quais deve ser “gente pequena”, devendo acreditar que animais e plantas se comunicam e ir além, devendo conversar com animais e plantas, mas também tendo obrigação de obedecer regras de pessoas malucas e outras nem tanto e – por fim – tendo sempre um coelho branco a lhe dizer: está ficando tarde, muito tarde e você está sempre atrasada!
Agora chega Tim Burton com uma metáfora da metáfora e nos apresenta um país das maravilhas totalmente delirante (mais para o sentido de apaixonante do que para o de desvario), como uma alucinação hipnagógica, sabe daquelas quando estamos acordando de um sonho e ainda não temos a total dimensão da realidade e da fantasia? Pois bem, assim é “Alice in Wonderland” de Tim Burton, bem longe do que Lewis Carrol escreveu, mas nem por isso ruim. Ou talvez justamente ruim porque se afastou muito da metáfora que eu acreditei durante toda minha vida.
Em certo ponto do filme, comentei com meu filho “Acho que todos nessa wonderland consomem drogas deliberadamente para poder suportar a realidade do submundo”. Mas, apesar de tudo, eu gostei do filme, podem acreditar. Não foi a Alice dos meus sonhos, mas foi a dos sonhos dele!
You're asking me will my love grow
I don't know, I don't know
You stick around now it may show
I don't know, I don't know
Something in the way she knows
And all I have to do is think of her
Something in the things she shows me
I don't want to leave her now
You know I believe and how
(The Beatles - "Something")
por Marilda Piccolo
Nunca se sabe quando os filhos vão embora, mas os pais sempre vão achar que é cedo demais. Por mais que você (como mãe ou pai) tenha lido trezentas e quarenta e sete vezes o poema de Kahlil Gibran (“Teus filhos não são teus filhos, são filhos e filhas do apelo da vida...”), por mais que você tenha se convencido ao longo da existência daquelas criaturas de que eles iriam partir: sempre é muito cedo.
Os filhos partem por muitos motivos: para estudar, casar, trabalhar, explorar cavernas, escalar montanhas, mergulhar em mares nunca dantes navegados... eles põem-se a caminho porque têm um mundo de coisas a fazer, de forma que sobra pouco tempo para repararem em nós. E não o fazem para nos ferir, na verdade, se querem nos ferir partir é a menor das armas. Eles têm que partir assim como a água de um rio corre, porém há sempre rios de águas frias/congelantes e rios de águas amenas.
É preciso aceitar a partida, porém sempre se fica com o coração na boca, mas a vida na terra não tem como prosseguir sem os rios que correm e os filhos que partem. Mas eles (e todos os filhos que já deixaram a casa dos pais, inclusive eu) precisam saber que depois que saem a casa fica com estranhos movimentos subterrâneos, às vezes cóleras vêm ter conosco e ainda há vezes como se austeros seres extra-terrestres ou inumanos viessem nos arrancar as declarações mais inconfessáveis.
A partir do dia da partida de cada um dos filhos, vive-se com um nó na garganta, ou melhor, com aquela sensação de falta de fôlego como quando se corre muito e de repente se pára, bruscamente.
Mas há o lado bom dos filhos partirem, você os vê grandes, crescendo na vida... Se partem é porque você lhes deu as penas das asas necessárias ao vôo, você lhes mostrou que há um céu, que nele há nuvens... Você lhes fez ver as lonjuras, você os desafiou às funduras, você lhes ensinou as regras e até mesmo como desrespeitá-las.
E o melhor dos filhos partirem é que eles voltam, em visitas rápidas, para comer aquele bolo que só você sabe fazer, para passar a madrugada conversando ou para buscar a mesada... Mas eles voltam, ah, voltam!

"Quando nada mais importa, descobrimos o valor que damos a cada coisa, o sentido exato daquela caixa de música ou da lembrança mais remota da infância, que teima em voltar cada vez mais nítida." (Monique Revillion)
Era manhã quando recebi aquele telegrama, que fez eu me sentir de maneira inexplicável, não foi um bom sentimento. Ele dizia: “Edu, eu sei que você está distante, e que provavelmente você não está interessado em ver todos de novo, mas a Tia Maria está no leito de morte, e não para de falar de você. Eu sei que é pedir muito, porém, por favor, venha! Com carinho, sua prima Ju.” Num ato impensado e mal calculado, eu fui.
Eu havia me acostumado a ser sozinho, ter apenas minhas fotografias, meus hábitos e minha cultura, nada mais, e tive medo de ir e me desacostumar.
Durante o vôo, tudo começou a voltar na minha mente, às lembranças da infância, a casa na árvore, minha adolescência, e os motivos pelos quais eu me afastei tanto após a faculdade. Eu não suportava mais toda a intromissão dos irmãos e sobrinhos do meu pai, e não eram poucos. Com eles tudo sempre foi muito complicado, e eu acho que minha presença nunca fez diferença, talvez porque eu fosse o deslocado, como a ovelha negra. Um dia eu fui embora pensando em nunca mais voltar, e me afastei.
Cheguei à cidade, pouco havia mudado, ao atravessar aquelas avenidas cheias de palmeiras, e passar por aquelas quadras, eu não pude evitar, eu me lembrei de toda a minha vida naquele lugar, e lutei para conseguir ficar firme. Desci na casa da minha tia, hesitei antes de tocar aquela campainha antiquada que eu sempre adorei, até que eu toquei.
Minha prima atendeu a porta, e eu não posso descrever o olhar dela ao me rever, seus olhos brilhavam, ela me deu um abraço forte, e assim foi com os outros que estavam lá, enquanto eu atravessava o corredor eu fui recebendo carinhos sem palavras, meu coração já não cabia dentro do meu peito. Fui até a cama onde minha tia estava, e disse: “Oi tia!” Ela ficou me encarando maravilhada e respondeu: “Oi monstro!” Me deu um abraço e se foi, partiu. O meu apelido de infância foi a última coisa que ela disse.
No final das contas, todos eles estavam lá para me amparar, e a minha presença fez diferença para a minha família. Mas, a realidade cai de volta sobre nós, como uma bola de neve numa avalanche, novamente, eu tive que ir embora.